Extras · Pop ocidental

Extras: Halsey – Graveyard

Eu nunca fui a maior fã da Halsey, e na verdade eu não ouvia muito do catalogo dela além das ótimas Stranger e Lie, de seu segundo álbum e de duas músicas de seu primeiro álbum, Control e Hold me Down que vieram parar no meu celular, nem sei direito como
Mas, dá última vez que eu fui pra casa do meu melhor amigo (no inicio de 2019) ele me revelou ter gostado de Without Me da Halsey, inclusive chegou a cantar com seu violão,  e eu na verdade não me lembro de ter ouvido antes disso, mas pode ser que tenha e só não tenha prestado atenção
Bom, eu passei a ouvi-la porque ela me lembrava dele, e quando eventualmente ele foi parar no hospital, eu passei a ouvi-la ainda mais, a ponto de ela aparecer bem alto na minha lista de mais ouvidos no ano do Last.fm

Porém, como eu sou muito desligada do que está acontecendo no pop ocidental que não tenha a ver com meus faves indie-porém-mainstream/alternativos, eu não fiquei sabendo que o álbum dessa música havia saído
Até que, zappeando por blogs que ainda postam, cheguei a esse post do Palpites Alheios, que era um review do álbum novo da Halsey, e como eu estava de férias e com tempo livre, decidi que ia ouvir esse álbum

Acabou que o estilo creepy-lullaby que permeia o álbum e todas as referências deste a como você se sente estando em mania me fizeram ouvir o álbum diversas vezes
Mas uma música específica (e seu clipe) acabaram me chamaram mais atenção que as outras
Essa música se chama Graveyard, a terceira do álbum, e de longe minha favorita

O álbum, além de ter muitas faixas em que Halsey finalmente desapega do “personagem criado pras câmeras” Halsey  e nos mostra toda a sua fragilidade como Ashley, a pessoa por trás dessa “máscara” (Ashley, Clementine, 3 AM, 929), tem faixas que, assim como Without Me falam bastante sobre o relacionamento abusivo que ela teve com G-Easy, o que pode ser visto em versos como Você não precisa dizer, apenas o que você fez / Eu já estou sabendo / Eu tive que ir e descobrir por eles que dá indícios de que ela foi traída por ele e  “Eu estava com medo de deixá-lo sozinho / Eu disse que te pegaria se você caísse / E se eles rirem, então f*dam-se todos / E então eu te levantei de seus joelhos / Coloquei você de volta sobre seus pés / Só pra você tirar vantagem de mim” que deixa claro que ele apenas a usou pra beneficio próprio quando tudo que ela queria era ajudar

Além da minha faixa favorita, outra faixa, You Should be Sad, explica de forma ainda mais explicita como esse relacionamento era disfuncional e cheio de sofrimento para Halsey “E eu não tive nenhum aviso sobre quem você é / Estou feliz por ter conseguido escapar dessa sem me machucar / E então correr para bem longe / Que você nunca mais irá me tocar / Não vou ver as suas lágrimas falsas / Porque, não, eu já tive o suficiente delas” e o mais doloroso trecho de todos “Estou tão feliz por nunca, jamais ter tido um filho contigo / Porque você não é capaz de amar nada, a não ser que seja vantajoso pra você”, pois Halsey fala abertamente sobre ter problemas com endometriose, e essa doença afeta a sua capacidade de ter filhos, assunto tratado de forma extremamente poética na música “More”, onde ela fala sobre o quanto ela deseja um filho, mas por causa da doença, acaba tendo um aborto espontâneo

Tendo explicado o contexto do álbum, eu gostaria de falar sobre essa música, Graveyard,  e sobre como ela me ajudou extremamente, principalmente no contexto de se ter perdido um amigo (Graveyard quer dizer cemitério) e de sentir falta de algo que, bom, não posso ter mais (O clipe)

A música fala sobre um relacionamento, que, embora a machuque, como ela diz em:
“É louco quando / O que você mais ama em algo é o dano que isso traz / Reflita um pouco sobre isso”, é simplesmente algo que ela não pretende/não consegue parar:
“Porque eu estou me cavando cada vez mais fundo / E não vou parar até chegar onde você está / Eu continuo correndo, continuo correndo, continuo correndo”
E finalmente no trecho do refrão que dá titulo á música é dito
“Dizem que eu posso estar cometendo um erro / Eu teria seguido todo o caminho, sem ligar para quão distante / Eu sei que quando você passa por todas as suas estradas mais sombrias / Eu teria seguido todo o caminho até o cemitério”

Embora o meu relacionamento com meu amigo não tivesse nada num nível tão abusivo quanto o que ela relata, o fato de que essa música falar de estar num relacionamento em que a pessoa passa pelas suas “estradas mais sombrias”, é algo que eu me identifico muito
Esse era o problema que eu mais tinha com esse amigo, a forma como ele se destruía me afetava também, e me machucava muito, porque ele era uma das pessoas mais importantes pra mim, e uma das poucas que realmente me entendia

Depois que ele foi embora, se tornou difícil não entrar numa espiral depressiva e querer desistir de tudo, logo quando minha vida estava no seu melhor momento
E eu precisei de me lembrar que o que ele ia querer de mim, é que eu continuasse, e continuasse bem

Esse clipe exemplifica perfeitamente como foi que eu me senti,
Ele começa com Halsey desenhando a namorada/garota perfeita e ela se materializando, ou seja, ela é apenas um produto da imaginação de Halsey, ela é a pessoa perfeita, com quem ela se diverte e esquece do mundo em um parque de diversões colorido e cheio de luzes
Porém, quando ela chega no aquário (que é onde acontece o clipe do próximo single, Clementine), a garota desaparece na entrada
E quando Halsey percebe, parece se sentir/passar mal e tentar se segurar no aquário, e em seguida, desmaia e imagina ser pega pela garota (lembram doEu disse que te pegaria se você caísse“?)
Com isso, ela entra na água (ela caiu em direção ao áquario) e aí aparece uma cena dela acordando na cama onde desenhou a garota, e depois acordando no mundo totalmente em branco, onde as únicas coisas coloridas são ela e o céu
Ela entra no parque de novo e todas as coisas continuam sem cores, aparecem flashes dela na água, e então ela olha pra cima em direção das plantas e então voltamos pra Halsey com o caderno no mesmo quarto onde ela começou o clipe, porém agora ele está em branco também
A garota aparece na frente do parque de diversões olhando pra câmera

Minha interpretação é que Halsey idealiza o relacionamento perfeito, e Sydney Sweeney (a atriz que interpreta a garota) personifica isso, mas quando ela percebe que está usando isso pra fugir da realidade de seus sentimentos, o que é personificado por ela ter um momento de revelação no aquário, ela percebe que precisa parar de fugir e lidar com o termino (imagino que esse clipe seja num cenário pós término com G-Easy)
E então terminamos com a comparação do mundo idealizado (colorido, cheio de luzes) e o mundo real (branco, sem graça, sem cor alguma, solitário)
O que mostra que, bom, Halsey agora além de não saber que caminho tomar (terminar um relacionamento, principalmente um que deixou marcas, realmente dificulta isso) e precisa começar a se encontrar do 0, como uma folha em branco, e encontrar uma forma de colori-lo ela mesma

Assistir esse vídeo me consola muito justamente por isso, ele me lembra perfeitamente do meu relacionamento com esse amigo, de como eu me sentia a salvo com ele, e  confortável pra ser eu mesma e sentia que tudo seria possível se eu estivesse com ele
E assim como no vídeo, quando ele partiu, é como se as cores tivessem sido arrancadas do mundo, e eu passei alguns dias tendo que me reconstruir, me recompor e enquanto sentia que o mundo dentro de mim estava caindo, o mundo ao meu redor retomava com força

Não tem como explicar o quão solitário é saber que agora, quando algo bom acontecer eu não poderei mais contar pro meu melhor amigo, e o álbum de Halsey, apesar de escrito em um contexto muito diferente, tem me ajudado a lidar com esses sentimentos, e principalmente a colocá-los em palavras, como fiz nesse post, o que o tornou muito importante pra mim, e muito agradecida a Halsey por falar de seus sentimentos e de seu relacionamento consigo mesma de forma tão aberta

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